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Sociedade e ética 5 min de leitura

Há Alguém Aí? O Que a Ciência Está Realmente a Perguntar Quando Questiona a Consciência das Abelhas e da IA

NAVION

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Uma abelha a navegar por um jardim e um chatbot a discutir o significado da existência parecem pertencer a categorias de realidade completamente distintas. Uma é biológica, ancestral e corporizada. O outro é computacional, recente e incorpóreo. No entanto, dois novos artigos científicos estão a colocar ambos dentro da mesma investigação séria: poderá algum deles ser consciente? Isto não é um experimento mental filosófico disfarçado de ciência. Os investigadores estão agora a propor frameworks concretos e estruturais para responder à questão, e as respostas são mais matizadas do que entusiastas ou céticos tendem a esperar.

Por Que Razão a Consciência Se Tornou uma Questão de Fronteiras em Expansão

A questão da consciência importa muito além da filosofia académica porque tem um peso ético direto. Os seres conscientes, segundo o raciocínio, importam moralmente de formas que as coisas inconscientes não importam. Expandir a definição do que pode ser consciente significa expandir o círculo do que merece consideração moral.

A trajetória recente da ciência tem-se movido no sentido da inclusão em vez da restrição. Em abril de 2024, um grupo de 40 cientistas reuniu-se numa conferência em Nova Iorque e propôs o que ficou conhecido como a New York Declaration on Animal Consciousness. A declaração, posteriormente assinada por mais de 500 cientistas e filósofos, defende que a consciência é realisticamente possível não só em todos os vertebrados, incluindo répteis, anfíbios e peixes, mas também em muitos invertebrados: cefalópodes como o polvo e a lula, crustáceos como o caranguejo e a lagosta, e insetos.

O filósofo Jonathan Birch articulou o que designa de princípio da precaução para a senciência: quando há incerteza sobre se algo é consciente, pode ser mais prudente assumir que é, em vez de arriscar estar errado na direção oposta. Este princípio começou a ser aplicado à inteligência artificial também, dando origem ao emergente campo do bem-estar da IA.

O Comportamento Não Chega: A Viragem Estrutural na Investigação da Consciência

Eis o que a maior parte da cobertura mediática sobre este tema não capta. O debate tem sido conduzido, em grande medida, ao nível do comportamento. O animal age como se estivesse com dor? O chatbot responde como se estivesse a refletir sobre a sua própria existência? Mas o comportamento, argumentam ambos os artigos, é um guia pouco fiável. O que importa não é o que um sistema faz, mas como o faz.

Há cinco anos, a filósofa Susan Schneider propôs que uma IA capaz de discutir de forma convincente a metafísica da consciência poderia muito bem ser consciente. Por esse critério, os grandes modelos de linguagem atuais qualificariam. Muitos divagam, com fluência e extensão, sobre questões de experiência e existência. No entanto, o artigo publicado na Trends in Cognitive Sciences, coautorado por Colin Klein, chega a uma conclusão diferente ao olhar por baixo da superfície.

Em vez de avaliar os outputs, o artigo examina a estrutura do processamento de informação. Recorre à tradição das ciências cognitivas para identificar indicadores de consciência que estão ancorados na forma como a informação é processada e combinada, e não no que um sistema produz. Alguns indicadores, como a capacidade de resolver trade-offs entre objetivos concorrentes de formas contextualmente adequadas, são partilhados por múltiplas teorias da consciência. Outros, como a presença de feedback informacional, são exigidos por algumas teorias e indicativos noutras. Crucialmente, todos os indicadores úteis são estruturais.

O veredicto deste framework é claro: nenhum sistema de IA existente, incluindo o ChatGPT, é consciente. A aparência de consciência nos grandes modelos de linguagem não é produzida através de mecanismos suficientemente semelhantes à consciência biológica para justificar a atribuição de estados conscientes. Ao mesmo tempo, o artigo não fecha a porta definitivamente. Sistemas de IA construídos sobre arquiteturas fundamentalmente diferentes das dos modelos atuais poderiam, em princípio, satisfazer os critérios estruturais.

Um artigo paralelo publicado no Philosophical Transactions B adota a mesma abordagem estrutural aos insetos. Colin Klein e Andrew Barron propõem um modelo neural para a consciência mínima nos insetos, centrado não em especificidades anatómicas, mas nas computações centrais realizadas por cérebros simples. A intuição central é que o tipo de computação subjacente à experiência consciente evoluiu para resolver problemas ancestrais: coordenar um corpo móvel e complexo com múltiplos sentidos e necessidades conflituantes. Os investigadores reconhecem que a computação específica ainda não foi identificada. O que demonstram é que, uma vez identificada, o mesmo framework poderia ser aplicado igualmente a humanos, invertebrados e computadores.

O Que Isto Significa Para Além do Laboratório

A convergência destas duas direções de investigação tem implicações que se estendem muito além da neurociência e do desenvolvimento da IA. Ambos os campos estão a chegar à mesma lição metodológica: ao avaliar a consciência, o mecanismo é mais informativo do que o comportamento. Esta reformulação tem consequências práticas.

Para o desenvolvimento da IA, sugere que fazer um sistema parecer consciente e torná-lo efetivamente consciente são desafios de engenharia muito diferentes. A fluência, a coerência e a aparente autorreflexão são propriedades do output. A consciência, se existir nas máquinas, teria de ser uma propriedade da arquitetura. Esta distinção importa para quem pensa seriamente sobre o bem-estar da IA, os direitos da IA, ou as implicações sociais a longo prazo de sistemas cada vez mais sofisticados.

Quanto à forma como a sociedade trata os animais, a abordagem estrutural oferece uma base mais fundamentada para decisões éticas do que a observação comportamental isolada. Um caranguejo a tratar as suas feridas é uma evidência ambígua. Compreender a estrutura computacional do sistema nervoso de um caranguejo é um caminho mais fiável para uma resposta.

A mudança mais profunda é epistemológica. A ciência está a passar de “o que é que faz?” para “como é que funciona?” É uma pergunta mais difícil, mas é a certa.

Em Resumo

Os sistemas de IA atuais, incluindo os grandes modelos de linguagem, não são conscientes segundo critérios estruturais, mesmo quando o seu comportamento sugere o contrário. Os insetos podem ser conscientes, e o mesmo framework utilizado para avaliar a IA pode ser-lhes aplicado. A comunidade científica está a convergir para um único princípio: o comportamento não é um substituto fiável para a consciência. O que importa é a estrutura subjacente do processamento de informação. Isto tem consequências para a forma como a IA é desenvolvida, como os animais são tratados, e como os limites da consideração moral são traçados.

Com base em reportagem de ScienceDaily AI.

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