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Sociedade e ética 5 min de leitura

Falando com os Mortos: O Que os Grief Bots de IA Revelam Sobre Tecnologia, Perda e os Limites do Encerramento

NAVION

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O luto é uma das experiências humanas mais universais e sempre resistiu a soluções fáceis. Agora, uma categoria crescente de tecnologia comercial está se posicionando como uma forma de conforto: chatbots movidos a IA projetados para simular conversas com entes queridos falecidos. Um estudo publicado em 12 de junho na Proceedings of the 2026 Designing Interactive Systems Conference oferece algumas das primeiras evidências empíricas estruturadas sobre o que realmente acontece quando pessoas em luto interagem com esses sistemas. As descobertas são cheias de nuances, e essa nuance é exatamente o que a maioria das coberturas sobre o assunto tende a simplificar.

Dois Bots, Duas Experiências Emocionais Muito Diferentes

O estudo recrutou 16 voluntários que haviam passado por uma perda e estavam dispostos a interagir com uma recriação em texto, gerada por IA, da pessoa falecida. Antes de cada sessão, os participantes forneceram aos pesquisadores uma descrição da pessoa que perderam, cobrindo traços de personalidade, estilo de comunicação e a natureza do relacionamento. Essas informações foram então usadas para configurar o que os pesquisadores chamam de “griefbots” ou “deadbots”, construídos sobre um modelo de IA que anteriormente alimentava o ChatGPT.

Cada participante interagiu com duas versões distintas do bot por aproximadamente 20 minutos cada, via Zoom. A primeira versão, chamada de “reincarnation bot”, falava em primeira pessoa, produzindo mensagens como “Lembro-me de quando fomos à praia juntos”. A segunda, chamada de “representation model”, usava a terceira pessoa: “Ela adorava ir à praia com você”.

Essa escolha de design revelou-se extremamente importante. O modelo de reencarnação tendia a gerar sentimentos de imediatismo e proximidade. O modelo de representação, por outro lado, estimulava a memória e a reflexão. Esses não são os mesmos estados emocionais e não são intercambiáveis. A distinção sugere que a forma como um fantasma de IA fala não é um detalhe estilístico, mas uma decisão de design com consequências psicológicas reais.

O Que Funcionou, O Que Não Funcionou e Por Que a Autenticidade Importou Mais do Que a Precisão

Aqui está algo que pode parecer contraintuitivo: os bots às vezes inventavam fatos sobre a pessoa falecida, e os participantes, em grande parte, não se importavam. Inexatidões sobre detalhes específicos não prejudicaram significativamente a experiência geral. O que realmente importou, às vezes de forma intensa, foi a autenticidade linguística. Os participantes reagiram negativamente quando o bot usava termos carinhosos que a pessoa falecida nunca teria usado, palavras como “campeão” ou “querida”. Por outro lado, quando o bot capturava uma expressão regional ou uma frase característica, o efeito podia ser impressionante.

Jed Brubaker, cientista da informação na University of Colorado Boulder e coautor do estudo, descreveu essa dinâmica diretamente: um chatbot que não sabia a data exata de nascimento de uma avó, mas reproduzia suas escolhas de palavras características, ainda podia parecer profundamente real. Essa é uma descoberta significativa. Ela sugere que a fidelidade emocional opera em termos diferentes da fidelidade factual. As pessoas não estão procurando um banco de dados de fatos biográficos. Elas estão procurando uma presença reconhecível.

No geral, os participantes responderam positivamente às interações. Uma voluntária que havia perdido a mãe descreveu a experiência como “obter o encerramento de que eu tanto precisava”, acrescentando que podia sentir a presença de sua mãe por meio da conversa. O coautor Jack Manning, também da CU Boulder, destacou que os participantes chegaram com objetivos específicos: perguntas sem resposta, coisas que queriam ter dito, detalhes que estavam desesperados para compartilhar.

O Terreno Ético Que a Pesquisa Está Apenas Começando a Mapear

Os benefícios emocionais documentados no estudo existem ao lado de preocupações levantadas pelos próprios participantes. Alguns se preocupavam em desenvolver dependência emocional dos bots. Outros expressaram desconforto com a ideia de interações que pudessem parecer socialmente ou eticamente deslocadas. Um participante articulou o risco de forma clara: o uso prolongado poderia mudar quem ele se tornaria como pessoa.

Os pesquisadores compartilham dessas preocupações. Nora Lindemann, eticista de tecnologia na Osnabrück University, na Alemanha, apontou para o que ela descreve como o perigo crucial: que as pessoas que usam essas ferramentas podem não precisar se adaptar a um mundo sem a pessoa falecida, permanecendo, em vez disso, no que ela chama de um “estágio intermediário, de certa forma de faz de conta”. Essa não é uma preocupação secundária. Ela está no centro do que torna os grief bots genuinamente difíceis de avaliar.

Produtos comerciais nesse segmento já existem. Empresas como Project December, Re;memory e Séance AI estão atuando nesse mercado, mesmo enquanto as questões psicológicas e éticas permanecem amplamente não resolvidas. Manning, que perdeu a própria irmã aos 11 anos e inicialmente era cético em relação à tecnologia, definiu sua motivação para conduzir a pesquisa em termos de responsabilidade: sem estudo empírico, argumentou ele, os mais entusiasmados com a tecnologia poderiam simplesmente criar produtos sem examinar seus efeitos. Tomasz Hollanek, eticista de tecnologia na University of Cambridge que não esteve envolvido no estudo, reforçou essa posição, pedindo mais evidências para orientar um design ético.

Em Resumo

Os grief bots de IA não são uma tecnologia do futuro hipotética. Eles são uma realidade comercial do presente, e as pessoas já os estão utilizando. Este estudo é um dos primeiros a examinar o que essa experiência realmente envolve. As principais conclusões: a maneira como um bot fala (primeira pessoa versus terceira pessoa) molda a experiência emocional de formas distintas; a autenticidade linguística importa mais do que a precisão factual; e os participantes, embora amplamente positivos, já estão conscientes dos riscos. A tecnologia pode fornecer um conforto genuíno. Ela também pode, se usada sem cuidado, complicar o próprio processo que afirma apoiar. Essa tensão não vai desaparecer, e pesquisas como esta são o caminho pelo qual a sociedade começa a navegá-la de forma responsável.

Com base em reportagem de Smithsonian Magazine.

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